O jornalismo produzido nos Estados e municípios ganhou protagonismo na sexta edição do Prêmio INAC de Integridade, realizada no Theatro Municipal de São Paulo. Ao reconhecer profissionais que investigam o poder público diretamente nos territórios onde as decisões são tomadas e os recursos são executados, a premiação reforçou o papel da imprensa local como uma das frentes de fiscalização e combate à corrupção no Brasil.
Promovido pelo Instituto Não Aceito Corrupção (INAC), o prêmio recebeu 223 inscrições de 20 Estados brasileiros. Ao todo, 41 trabalhos chegaram à fase final, distribuídos em sete categorias: Academia, Tecnologia e Inovação, Experiência Profissional, Boas Práticas de Governança Corporativa, Jornalismo Investigativo, Integridade no Esporte e na Cultura e Comunicadores Locais.
A edição contou ainda com a menção honrosa “Deu Certo!”, destinada a iniciativas anteriormente reconhecidas pelo instituto que foram efetivamente implementadas.
Jornalismo que fiscaliza o poder nos territórios
Uma das categorias em destaque foi “Comunicadores Locais”, criada para reconhecer jornalistas e veículos que acompanham de perto prefeituras, governos estaduais, câmaras municipais, assembleias legislativas, tribunais, forças de segurança, licitações e contratos públicos.
Segundo o presidente do INAC, procurador de Justiça de São Paulo Roberto Livianu, esses profissionais ocupam uma posição estratégica na fiscalização do poder porque estão próximos das instituições e das consequências das decisões administrativas.
“É no território onde o dinheiro público é executado e onde as decisões administrativas atingem diretamente a população que repórteres conseguem identificar personagens, documentos, contratos, relações políticas e movimentações que dificilmente seriam percebidas à distância, e são eles que ficam mais vulneráveis às ameaças”, afirmou.
A banca responsável pela avaliação da categoria foi formada por Emily Costa, Lucas de Aragão, Luiz Alberto Farias, Luiza Chaer e Paula Litaiff, conselheira do INAC e diretora-geral da REVISTA CENARIUM.
Os cinco trabalhos finalistas foram produzidos por profissionais do Extra, CartaCapital, InfoAmazonia, Grupo EP e Conquista Repórter, com investigações envolvendo recursos públicos, meio ambiente, operações anticorrupção e contratos de saneamento.

‘Bonde dos Fantasmas’ conquista primeiro lugar e Grande Prêmio
A jornalista Roberta de Souza, do Extra, conquistou o primeiro lugar entre os Comunicadores Locais com a reportagem “Bonde dos Fantasmas”, investigação sobre irregularidades e corrupção envolvendo a Polícia Militar do Rio de Janeiro.
O trabalho também recebeu o Grande Prêmio INAC Integridade, principal reconhecimento da noite.
“Iniciativas como a do INAC fortalecem e valorizam o jornalismo investigativo, como foi o meu trabalho e dos colegas aqui presentes”, afirmou Roberta.
Para o instituto, o reconhecimento de uma investigação com origem local evidencia como reportagens produzidas a partir da realidade de cidades e Estados podem revelar problemas de alcance muito maior.
Grandes casos de repercussão nacional frequentemente começam pela investigação de documentos, contratos, agentes públicos e relações políticas identificadas inicialmente dentro de um território específico.
O segundo lugar da categoria ficou com o jornalista Cristiano Pavini, do Grupo EP, autor de “Sevandija – A história da operação contra a corrupção que estremeceu uma das maiores cidades brasileiras”.
Na terceira colocação ficaram Wendal Carmo e Leonardo Miazzo, da CartaCapital, com a reportagem “Liberação de água para haras da primeira-dama de Sergipe teve ajuda de servidor estatal”.
Jornalismo profissional diante das fake news

A diretora-geral da REVISTA CENARIUM, Paula Litaiff, destacou que o reconhecimento ao jornalismo regional ocorre em um período marcado pela velocidade de circulação das informações nas redes sociais e pela expansão da desinformação.
Para ela, investigações jornalísticas exigem estrutura profissional, tempo de apuração e procedimentos que diferenciam o jornalismo da circulação indiscriminada de conteúdos nas plataformas digitais.
“O jornalismo investigativo profissional exige tempo, documentação, cruzamento de informações, acesso a fontes, contraditório e responsabilidade editorial, recursos que nem sempre estão disponíveis em estruturas menores de comunicação. Por isso, premiar investigações locais significa também reconhecer a importância de manter redações capazes de exercer fiscalização permanente sobre o poder”, afirmou.
Litaiff participou da banca julgadora da categoria Comunicadores Locais e também da cerimônia de entrega dos certificados aos vencedores, ao lado do diretor de Comunicação da USP, Luiz Alberto Farias, do ator Luiz Guilherme Favati e do empresário Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice.
Investigação sobre decisões no STJ também é premiada
Na categoria Jornalismo Investigativo, o vencedor foi o jornalista Breno Pires, da revista piauí, com a reportagem “Verdadeiro comércio”.
O trabalho investigou um esquema relacionado à negociação de decisões judiciais no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo as informações apresentadas pelo INAC, a reportagem reconstruiu conexões entre interesses privados, movimentações financeiras e decisões relacionadas a causas milionárias.
Também ficaram entre os finalistas Rafael Soares, de O Globo, com “Tentáculos do Comando Vermelho”, e Marcelo Martins Brüzzi, Adriana Cruz e Priscilla Monteiro, do Fantástico, da TV Globo, com uma investigação sobre fraudes em cartórios.
Tecnologia e governança contra a corrupção
A sexta edição do prêmio também reconheceu iniciativas que utilizam tecnologia, governança e mecanismos institucionais para ampliar a transparência e prevenir irregularidades.
Na categoria Tecnologia e Inovação, o destaque foi o Cidadão.AI, de Anderson Henrique da Silva.
Em Boas Práticas de Governança Corporativa, foi reconhecido o SIGIMAR – Sistema de Gestão de Integridade do Maranhão, apresentado por Hugo Augusto Brandão dos Santos.
Já na categoria Experiência Profissional, venceu a Caule – Central de Análise Universal de Licitações e Editais, de Márcio Medeiro Gomes.
As iniciativas mostram que o enfrentamento à corrupção passa não apenas pela identificação de irregularidades, mas também pela construção de instrumentos capazes de ampliar transparência, controle, prevenção e acompanhamento da aplicação dos recursos públicos.
Prêmio chega à sexta edição com alcance nacional
Fundado em 2015, o Instituto Não Aceito Corrupção chega a uma década de atuação ampliando o alcance de sua premiação.
O projeto nasceu inicialmente associado à produção acadêmica e passou a incorporar o jornalismo investigativo a partir da terceira edição. Posteriormente, novas categorias foram incluídas para reconhecer iniciativas em tecnologia, governança, atuação profissional, esporte, cultura e comunicação local.
“Ao completar um ciclo de 10 anos de vida, o 6º Prêmio INAC de Integridade recebeu neste ano 223 trabalhos provenientes de 20 Estados brasileiros das cinco regiões, consolidando-se como iniciativa de fato nacional com trabalhos de qualidade extraordinária, disruptiva, corajosa, quer nos campos acadêmico, jornalístico, corporativo e profissional, quer no campo tecnológico”, destacou Roberto Livianu.
Para Paula Litaiff, a inclusão dos comunicadores locais amplia o alcance do reconhecimento justamente para profissionais que atuam longe dos maiores centros de comunicação do país.
“A ampliação para os comunicadores locais reconhece uma realidade que ganha ainda mais importância nas regiões distantes dos principais centros econômicos do país. Sem imprensa local independente, parte significativa dos atos do poder público permanece distante da fiscalização nacional”, afirmou.
Ao colocar lado a lado jornalistas, pesquisadores, especialistas em tecnologia e profissionais envolvidos com governança e integridade, a sexta edição do prêmio reforçou uma mensagem central: o combate à corrupção depende tanto de instituições e mecanismos de controle quanto de uma imprensa profissional capaz de investigar o poder onde ele é exercido.
E, muitas vezes, é justamente uma investigação iniciada por um jornalista dentro de uma cidade ou Estado que revela histórias capazes de ultrapassar fronteiras regionais e ganhar dimensão nacional.
Principais vencedores
Grande Prêmio INAC Integridade
“Bonde dos Fantasmas” — Roberta de Souza, Extra.
Comunicadores Locais
1º lugar — “Bonde dos Fantasmas”, Roberta de Souza, Extra.
2º lugar — “Sevandija – A história da operação contra a corrupção que estremeceu uma das maiores cidades brasileiras”, Cristiano Pavini, Grupo EP.
3º lugar — “Liberação de água para haras da primeira-dama de Sergipe teve ajuda de servidor estatal”, Wendal Carmo e Leonardo Miazzo, CartaCapital.
Jornalismo Investigativo
“Verdadeiro comércio” — Breno Pires, revista piauí.
Tecnologia e Inovação
Cidadão.AI — Anderson Henrique da Silva.
Experiência Profissional
Caule – Central de Análise Universal de Licitações e Editais — Márcio Medeiro Gomes.
Boas Práticas de Governança
SIGIMAR – Sistema de Gestão de Integridade do Maranhão — Hugo Augusto Brandão dos Santos.
